quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Flicts - Ziraldo

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FLICTS

Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts. Não tinha a força do vermelho, não tinha a imensa luz do amarelo, nem a paz que tem o azul. Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts.
Tudo no mundo tem cor; tudo no mundo é azul, cor-de-rosa ou furta-cor. É vermelho ou amarelo; quase tudo tem seu tom roxo, violeta ou lilás. Mas não existe no mundo nada que seja Flicts – nem a sua solidão.
Flicts nunca teve par, nunca teve um lugarzinho num espaço bicolor e tricolor muito menos (pois três sempre foi demais). Não; não existe no mundo nada que seja Flicts.
Na escola, a caixa cheia de lápis de cor; de colorir paisagem, casinha, cerca, telhado, árvore, flor, caminho, laço, ciranda e fita. Não tem lugar para Flicts.
Quando volta a primavera que o parque e o jardim todos se cobrem de cores, nenhuma cor nem ninguém quer brincar com o pobre Flicts.
Um dia, ele viu no céu – depois de uma chuva cinzenta – uma turma toda feliz saindo para o recreio. E se chegou a hora para brincar, é assim: Deixa eu ficar na berlinda? Deixa eu ser a cabra cega? Deixa eu ser o cavalinho? Deixa que eu fique no pique. Mas, ninguém olhou para ele. Só disseram frases curtas, cada um por sua vez:
_ Sete é um número tão bonito; disse o vermelho.
_ Não tem lugar pra você; disse o laranja.
_ Vai procurar um espelho; disse o amarelo.
_ Somos uma grande família; disse o verde.
_ Temos um nome a zelar; disse o azul;
_ Não quebre uma tradição; disse o claro azul anil.
_ Por favor, não vá querer quebrar a ordem natural das coisas; disse violento o violeta.
E as sete cores se deram as mãos e à roda voltaram. E voltaram a girar. A girar, girar, girar. E mais uma vez, deixaram o frágil, aflito e feio Flicts na sua branca solidão.
Mas Flicts não se emendava (e por que se emendar?); não era bom ser tão só e um dia foi procurar um trabalho pra fazer a salvação no trabalho: “Será que eu não posso ter um cantinho ou uma faixa em escudo ou em brasão, em bandeira ou estandarte”?
“Não há vagas”; falou o azul. “Não há vagas”; sussurrou o branco. “Não há vagas”; berrou o vermelho.
Mas, existem mil bandeiras; trabalho pra tanta cor. E Flicts correu o mundo em busca do seu lugar. E Flicts correu o mundo: pelos países mais bonitos; pelas terras mais distantes; pelas terras mais antigas; pelos países mais jovens.
Mas, nem mesmo as terras mais jovens, as bandeiras mais novas e as bandeiras todas que ainda vão ser criadas se lembraram de Flicts ou pensaram nele para ser sua cor. Não tinha para ele uma estrela, uma faixa, uma inscrição. Nada no mundo é flicts ou pelo menos quer ser. O céu, por exemplo, é azul; é todo do azul o mar.
Mas quem sabe o mar, “quem sabe” pensa Filcts agitado. “O mar é tão inconstante. É cinzento, se o dia é cinzento, como um imenso lago de chumbo. E muda com o sol ou a chuva; negro,salgado ou vermelho”.
O mar é tão inconstante, tem tantas cores o mar. Mas, para o pobre do Flicts, suas cores não dão lugar. E o pobre Flicts procura alguém para ser seu par; um companheiro, um amigo, um irmão complementar em cada praça e jardim, em cada rua e esquina: Eu posso ser seu amigo?
“Não”, avisa o vermelho. “Espera” o amarelo diz. ”Vai embora”, lhe manda o verde. E, mais uma vez sozinho, o pobre Flicts se vai...
Um dia, Flicts parou; e parou de procurar. Olhou pra longe, bem longe e foi subindo, subindo. E foi ficando tão longe, e foi subindo e sumindo; e foi sumindo e sumindo... Sumiu.
Sumiu que o olhar mais agudo não podia adivinhar pra onde tinha ido, pra onde tinha fugido, em que lugar se escondera, o frágil e feio e aflito do Flicts.
E hoje com dia claro, mesmo com o sol muito alto, quando a lua vem de dia brigar com o brilho do sol, a lua é azul. Quando a Lua aparece – nos fins das tardes de outono – do outro lado do mar, como uma bola de fogo, ela é redonda e vermelha. E nas noites muito claras, quando a noite é toda dela, a Lua é de prata e ouro, enorme bola amarela.
Mas ninguém sabe a verdade (a não ser os astronautas) que de perto, de pertinho, a Lua é flicts. Quando Neil Armstrong – o primeiro homem que pisou na Lua – veio ao rio de Janeiro, contei-lhe a história de Flicts e ele me confirmou que a Lua era, realmente, FLICTS (Ziraldo).


O mundo não é uma coleção de objetos naturais, com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência; o mundo são cores.
A vida não é uma série de funções da substância organizada, desde a mais humilde até à de maior requinte; a vida são cores.
Tudo é cor... Aprendo isso, tão tarde! com Ziraldo. Ou mais propriamente com Flicts... Quem é Flicts?
... Flicts é a iluminação — afinal, brotou a palavra — mais fascinante de um achado: a cor, muito além do fenômeno visual, é estado de ser, e é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, e revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam — fly, flit, fling — no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos, se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha, em seu livro.

Carlos Drummond de Andrade


Flicts é um livro infantil ilustrado do escritor e desenhista Ziraldo editado pela primeira vez em 1969. No livro Flicts é uma cor de que ninguém gosta, ninguém lê, da qual ninguém se lembra. O livro conta sua jornada em busca de seu lugar no mundo.

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